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Educação e Sociedade

Sérgio Pereira dos Santos

Faz doutorado em educação pelo PPGE/UFES, cuja temática é a análise das Ações Afirmativas no Ensino Superior. É Mestre em Educação pela UFES em 2008. Graduado em Pedagogia pela UFES em 2005.  É Professor Convidado da Faculdade Brasileira (FABRA). Foi Professor Substituto na UFES nos períodos entre 2009/01 a 2010/02 nos cursos de Licenciatura. Tem experiência com educação pré-universitária popular e alternativa para os jovens negros e das camadas populares.  É Membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFES. Estuda a questão racial brasileira, as relações entre classe, raça e educação, juventude e sociedade, educação e função social da escola, negritude e universidade. Autor do livro “Escola: permanências, desequilíbrios e possibilidades”, 2006; e um dos organizadores da obra: “Cinema, Educação e Inclusão”, 2012.

 

Currículo e Contato:

03/03/2013 - Os laços da pobreza com o racismo

Tristes fatos! É a tônica dos ocorridos no fim de 2012 com dois negros de grande prestígio no cenário mundial do esporte e da música, o regente brasileiro Israel de França e o fundista somaliano naturalizado britânico, Mo Farah.


Israel afirma que sofreu racismo ao ser espancado sem justificativa por policiais enquanto estava com seu amigo brasileiro, branco, que foi liberado. França, regente de orquestra na Espanha, foi solista em grandes centros de música no Brasil, teve que tocar seu violino nos anos de 1980 na delegacia de Recife pra provar sua inocência. Já Mo Farah, bicampeão olímpico nos 5 mil e 10 mil, passou por um grande transtorno ao ser confundido novamente com terroristas por policiais norte-americanos num aeroporto. O britânico levou e mostrou suas duas medalhas de ouro pra ser reconhecido desta vez, mas isso não adiantou.


Os fatos acontecidos por França e Farah, infelizmente, se juntam a muitas ocorrências policiais e práticas quotidianas no mundo contra os negros. Mesmo os dois tendo prestígio e não sendo mais pobres, isso não o isentaram de ser “elementos suspeitos” e violentados por policiais. Tais acontecimentos reacendem uma “velha” discussão no cenário político e acadêmico brasileiro acerca da temática raça e classe: o preconceito que o negro vive é por causa de sua pobreza, de sua cor ou por ambas?


A tentativa de negação da identidade negra, do racismo e da desigualdade racial no Brasil se deu de muitas formas após a escravidão em 1888. A eugenia, cunhada em 1883 pelo primo de Darwin, Francis Galton, se caracteriza pelo melhoramento genético da espécie humana, o isolamento, a proibição de casamento entre negros e brancos, a esterilização e a negação do negro, considerado inferior.


A política de branqueamento, após abolição no Brasil, se deu com a vinda de milhões de imigrantes europeus com os seguintes objetivos: diminuir o número de negros; difundir a miscigenação como base pra uma falsa democracia racial; negar a existência da história escravocrata isentando o Estado e a sociedade da responsabilidade de políticas para os ex-escravos; inserir o Brasil na ideia de progresso apregoado pelos capitalistas, já que ter negro era sintoma de fracasso econômico; e alimentar a ideologia da identidade nacional varguista da década de 1930. Isso sustentou os privilégios da elite econômica e branca, já que hoje a ciência enfatiza que a união inter-racial não degenera, fortalece a prole. O branqueamento foi ineficaz, já que ainda há negros, e estes reivindicam políticas junto ao Estado. E a miscigenação é engodo, porque a mistura não se dá na riqueza, na diplomacia, na pobreza, nos homicídios, nas universidades, no judiciário, nas altas patentes da carreira militar e nas abordagens policiais, como aconteceu com França e Farah.


Portanto, dependendo do local social ainda há uma branquitude ou uma negritude e a miscigenação vem à tona sempre pra negar a discrepância social, perpetuando o racismo e o abismo social entre negros e brancos. Os negros sofrem por ser negros e pobres, e a negra sofre três vezes. Mesmo quando os negros têm mobilidade social às classes altas, têm medalhas olímpicas ou tocam em grandes orquestras muitas vezes são aceitos pelo status, riqueza ou escolaridade, por isso vivenciam o mesmo racismo que sofriam quando eram pobres. Há que assumirmos que vivemos numa sociedade racista, injusta, desigual e que a raça/cor fala dia a dia quem é quem nos papéis sociais.



Artigo publicado inicialmente no jornal capixaba A Tribuna na página 23 da Seção “Tribuna Livre”, em 04/01/2013.

Professor do Ensino Superior. Doutorando em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFES. Membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFES.

 

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