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Educação e Sociedade

Sérgio Pereira dos Santos

Faz doutorado em educação pelo PPGE/UFES, cuja temática é a análise das Ações Afirmativas no Ensino Superior. É Mestre em Educação pela UFES em 2008. Graduado em Pedagogia pela UFES em 2005.  É Professor Convidado da Faculdade Brasileira (FABRA). Foi Professor Substituto na UFES nos períodos entre 2009/01 a 2010/02 nos cursos de Licenciatura. Tem experiência com educação pré-universitária popular e alternativa para os jovens negros e das camadas populares.  É Membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFES. Estuda a questão racial brasileira, as relações entre classe, raça e educação, juventude e sociedade, educação e função social da escola, negritude e universidade. Autor do livro “Escola: permanências, desequilíbrios e possibilidades”, 2006; e um dos organizadores da obra: “Cinema, Educação e Inclusão”, 2012.

 

Currículo e Contato:

03/03/2013 - Consciência negra, conquistas e lutas

Comemorar e lutar. Essa é a tônica do dia nacional da consciência negra no Brasil, considerando as conquistas advindas por lutas históricas e as atuais reivindicações que ora são horizontes dos movimentos negros e da sociedade brasileira.


O mito da democracia racial alicerçada na crença de que no Brasil existe igualdade racial ou ainda que negros e brancos detém os mesmos direitos a status, riqueza e poder, tende a mascarar e ocultar os mecanismos produtores das desigualdades e os sujeitos que são excluídos, tornados inexistentes quando se fala em reparação: “quem é negro no Brasil”? Isso se constitui numa naturalização das desigualdades sociais e raciais na ideia de uma “normalização” de processos perversos de exclusões, como é a chacina quotidiana que recai sobre a população jovem, pobre e negra do Brasil e no Estado capixaba, que é o segundo do país onde se mais mata a juventude negra, conforme dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Segundo este, 74,6% das pessoas que morrem a bala de fogo no Brasil são jovens negros de 15 a 29 anos; 72% dos jovens negros que são mortos por homicídios têm apenas 4 a 7 anos de estudos, ou seja, não chegam ao ensino médio, quiçá à universidade. O homicídio no Brasil tem cor negra, diferentemente nas universidades.


O acúmulo de lutas históricas dos escravos e do movimento negro contra o racismo e em prol do reconhecimento do negro como cidadão, possibilitou conquistas em processo de fortalecimento na sociedade, como: o aumento da consciência negra; a legitimação de que os problemas da população negra são também da sociedade brasileira e não apenas dos negros; as leis anti-racistas; a criação dos CEAFRO, dos NEAB e da SEPPIR; a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e da constitucionalidade das cotas raciais pelo STF; a implantação da Lei 10.639/2003 que obriga as escolas públicas e particulares a ministrarem o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira em todas as escolas brasileiras; e a criação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, etc.


Por isso, mesmo com essas conquistas, há muitas lutas a fazer, como um maior reconhecimento do Estado quanto à ampliação e concretização de políticas públicas para a população negra; o incentivo à formação de professores para as relações étnico-raciais para combater o racismo nas escolas; a desconstrução da ideia-padrão de que os negros são inferiores e especializados em serviços precarizados; e a defesa do reconhecimento social do negro como sujeito histórico e de direitos.


Assim, que 20 de novembro, cuja referência maior é a luta do grande Zumbi dos Palmares contra a escravidão, seja um tempo-alerta de se desmaterializar o histórico acumulativo de produção social de estereotipação e exclusão da população negra, junto a enfática explicitação da consciência política de que a malograda assinatura da abolição da escravatura não significou ainda uma liberdade ligada à emancipação efetiva do povo negro no Brasil, como ficou explícito na fala de Bob Marley: “Deram-me a liberdade, mas ainda não sou livre”.


Então, ao mesmo tempo em que avançamos através de lutas em situações que em outrora não existia, que todos os 20 de novembro que nos aguardam possam significar momentos profícuos de proposição, efetivação e de resistência em vistas a uma sociedade mais democrática, exitosa e justa para nós negros.


Artigo publicado inicialmente no jornal capixaba A Tribuna na página 24 da Seção “Tribuna Livre”, em 20/11/2012.

Professor do Ensino Superior. Doutorando em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFES. Membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFES.

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